terça-feira, março 27, 2007

QUANDO AQUELE AMIGO, QUE POUCO CONHECIA, MORREU

Esta noite acabou triste,
deitado, caído naquele palanque seguro por duas molas,
no poderoso descanso inconsciente, de quem já não sente.
Um homem, deixou a vida ao amanhecer,
aquela estrondosa doença venceu as forças que lhe restava.
Não foi um simples homem, como todos aqueles
que desconheçemos, aqueles que passam na rua e não nos trocam
cumprimentos,
não foi um homem que nunca conheci, embora o que conheci tenha
sido pouco.
Jamais será um homem qualquer,
e nunca o será porque o conhecia, embora não muito,
mas sei que não era um homem qualquer:
atravessava a estrada para um aperto de mão,
não fingia que passava e não se apercebia da minha presença,
da tua presença, da nossa presença;
elevou a mais sagrada crença da humildade,
não brotava de tristeza, mas também não sucumbia elevada
felicidade;
calmo, como o pôr do sol no Verão visto da praia,
como um avião quando atravessa a terra em dias de céu limpo,
calmo como eu nunca consegui ser.
Deixou-me, deixou-te, deixou-nos e herdamos a enorme saudade
que por muita dúvida minha, e insisto, o tempo não apagará.
Estás presente na nossa honesta presença seja em que lugar for,
a minha voz é a tua voz, a minha viva e a tua morta, mas, mesmo
morta
é a tua voz que faz a minha suar mais alto,
é o saber que não eras um homem qualquer que me faz falar,
que insiste em não me tornar mudo.
Eu próprio sei que não acredito na vida p'ra além da morte,
mas, porém, no nosso inconsciente morto, o teu já o está e o meu,
um dia também estará,
sei que nos vamos encontrar, e não preciso acreditar na vida além
da morte,
basta-me crer e basta-me sentir que, no dia em que o meu
insconsciente também morrer,
alguém vai ler isto que agora escrevo, e
na mais plena harmonia, os nossos inconscientes mortos
vão receber-se mutuamente de braços abertos.

HUGO SOUSA

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