quarta-feira, março 15, 2006

A nossa luta

Aqui estou eu mais uma vez. Neste lugar onde tantos passam as suas horas, sentados, uns a gemer de dores e outros apenas para o lanche.
Encontro-me aqui dentro desde as 8h da manhã e sigo até ao novo amanhecer. E o cansaço reina e vadia dentro de mim como uma luva que se encaixa dura e seca no meu corpo.
Durante os dias as pessoas passam, desejam-se as melhoras depois de um diagnóstico apressado e ao qual tentamos dar o melhor de nós próprios; passam os nossos colegas, a correr, de caras caídas pelo stress, pela procura do melhor; outros que nos fazem rir; algumas bocas que nos criticam e nos fazem desmoralizar; um comentário acerca do pouco dinheiro que eu gasto (suspiro)... e chegamos ao fim de 15 horas nisto, continuamos a correr e a certa altura há uma voz dentro de nós que nos pergunta "e agora? Que fiz eu e que recompensa trago disto tudo?"...
Penso... chegam-me à cabeça laivos de raiva pura, fotografias de bébés que choram, doentes, cansaço, intriga, desrespeito pela dignidade humana (a nossa!), a critica, o desespero, a incompreensão... e no fim o desalento.
E quem sou eu no meio disto tudo, deste emaranhado de emoções que não deviam aqui pertencer, trocadas, alteradas? Não sou nada, não sou ninguém. Sou apenas aquele que fez a "fotografia", aquele que, enfermeiro ou criado, todos precisam e ninguém sabe amar e respeitar...
É isto meus senhores e minhas senhoras que faz o meu trabalho, que passo a cada dia. Mas no fim, no fim mesmo de tudo há sempre alguém que nos toca no ombro, que nos diz duas palavras e reconstrói uma parte que sentimos partida. E nesse fim conseguimos sentir a rara beleza que certas pessoas fazem sentir na nossa vida, a relevam a importância que teve aquela "fotografia" que fiz, que reconstroem a moral que outros tiraram e nos fazem sentir os melhores do mundo...