Caro Nuno,
Pedistes para me abrir e encontraste um cofre fechado, desafiaste-me com um sorriso e eu perdi-te com um suspiro. Porque não posso da minha alma dar uma imagem, porque nessa imagem não me revejo, eu que por não acreditar creio não ter alma, por isso a tua câmara dispara no vazio. Não posso confessar o que não sei, não me posso confessar porque estou só a passar por aqui, e aproveito para te dizer. Porque reconheço na tua iniciativa coragem, porque sinto que te agarras à vida e escutas os outros, perscrutas no próximo, no longe: e mesmo no éter impessoal desta rede, onde afinal nos encontrámos... Mas a vida não é mais que uma viagem, cujo o objectivo nunca é mais sublime que uma Ítaca, como cantou o poeta grego. Não vale a pena tentares compreender a vida porque Ela quer é viver, dentro de ti, com ou sem as fotografias dos outros, exteriores ou interiores, agarrados os fotões a químico ou simplesmente projectados numa tela cortical (occipito-calcarina claro) por uma qualquer alucinação. Queres compreender a vida como que captada por uma lente, mas a lente da mente distorce a vida, mente. E a mente que mente, mente, porque senão descobríamos o segredo e não éramos mais humanos, perdidos, angustiados na fuga permanente à solidão de sabermos que no fundo, esta é uma passagem: e o meu Eu, uma miragem.Assim não tenho nada para te ensinar, eu sou o anti-profeta, o que não aceita, o que não espera, o reflexo do Eu maiúsculo transformado num eu minúsculo, verdadeiramente só. O negativo antecede a prova, mas paradoxalmente contém nele toda a claridade. Vive a tua esperança e nela encontra alegria, que aqueles que há muito perderam ambas (ou mesmo mais que as duas!) sabem que a vida se concentra num momento de dar, e a alegria possível é só uma recordação que vem num momento raro, em que conseguimos dar um pouco do que não temos. Porque não há mais que a recordação de um sorriso, vislumbrado num momento de abandono; poderá ser esse o azimute, a imagem perdida, finalmente iluminada por um raio de sol.
GB
